
O Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT NOVA) acolheu, a 3 de setembro, um workshop dedicado aos desafios da implementação da abordagem One Health (Uma Só Saúde) nos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A organização do evento resultou da colaboração entre vários parceiros lusófonos e diversas instituições portuguesas, sendo a Doutora Ana Domingos a responsável e ponto de contacto pela organização no IHMT NOVA. O evento, que juntou perto de uma centena de participantes, decorreu como pré-evento do 9.º World One Health Congress, que se realiza em Lisboa entre 4 e 7 de setembro.
A abordagem One Health parte da ideia de que a saúde humana, animal, vegetal e ambiental são interdependentes e de que só uma visão integrada permite responder a desafios cada vez mais globais, como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, o aparecimento de novas doenças ou a segurança alimentar. Foi essa convivência entre valências que o workshop procurou demonstrar: reunindo especialistas de áreas tão distintas como a veterinária, a agronomia, o direito, as forças armadas ou a gestão de recursos hídricos, o formato do evento funcionou como ferramenta para conciliar disciplinas habitualmente isoladas.
A força da diversidade lusófona
Na sessão de abertura, o Professor Doutor Filomeno Fortes, diretor do IHMT NOVA, traçou o pano de fundo das mudanças em curso no planeta e da necessidade de cruzar disciplinas, defendendo que a abordagem One Health deixou de ser responsabilidade exclusiva da medicina tropical para ganhar amplitude global. Defendeu a necessidade de sistemas de vigilância que deixem de olhar apenas para a componente epidemiológica e passem a incluir também a vigilância entomológica e farmacológica, alertando para o abuso de antibióticos não na saúde humana, na veterinária e na agricultura — uma ameaça que só pode ser combatida com equipas multidisciplinares.
O Professor Doutor Fernando Cupertino, presidente do Conselho do IHMT NOVA e coordenador da Comissão Temática da Saúde e Segurança Alimentar e Nutricional da CPLP-Brasil, enquadrou a sua intervenção nas comemorações dos 30 anos desta organização. Apontando a COVID-19 como prova dramática da interdependência entre a saúde das pessoas, dos animais e dos ecossistemas, defendeu que não basta reunir diferentes setores quando surge uma emergência: é preciso planeá-la em conjunto antes de os problemas se transformarem em crises. Sublinhou que a diversidade da CPLP — nove países em quatro continentes, com diferenças climáticas, ecológicas e sociais — pode e deve ser transformada em complementaridade, e defendeu que a governação de Uma Só Saúde exige uma governança única e sustentável, capaz de articular vigilância integrada, resistência antimicrobiana, clima e transformação digital, tendo a língua portuguesa como infraestrutura de conhecimento partilhado.
O Doutor Carlos das Neves, cientista-chefe da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e co-presidente do painel de peritos OHHLEP, identificou quatro desafios centrais à implementação da abordagem One Health: união, complexidade, perceção e, sobretudo, propósito — ou seja, se a abordagem resolve efetivamente problemas concretos. Recordou que o conceito de Uma Só Saúde não deve ficar circunscrito à resistência antimicrobiana nem aos países em desenvolvimento, e que a sua concretização exige envolver não só médicos e veterinários, mas também economistas, jornalistas e decisores políticos. Deixou como mensagem central que romper silos não é o caminho certo: é preciso construir pontes entre disciplinas, um processo que demora tempo e exige manutenção contínua.
Exemplos do terreno, incluindo vozes subvalorizadas
Na primeira sessão da manhã, moderada pelo Doutor Júlio Carvalho (Exército Português), esta sessão de discussão focou-se nas estratégias continentais e regionais de mitigação de riscos biológicos. Destacou-se a apresentação do projeto Simba Luso, iniciativa transdisciplinar apoiada, entre outros parceiros, pelo Canadá, para criar ferramentas e redes de biossegurança e gestão de risco nos países lusófonos de África. Um outro momento marcante do painel dedicado às ameaças biológicas foi o testemunho da Dra. Suzana Fernandes, fitopatologista moçambicana, que recordou como o seu avô, agricultor na Zambézia, identificou os primeiros sinais do amarelecimento letal do coqueiro — um exemplo de vigilância comunitária que precedeu a deteção científica e que ilustra a importância, muitas vezes negligenciada, de incluir a saúde das plantas na agenda de Uma Só Saúde.
A segunda sessão abriu com apresentações concisas sobre a aplicação prática do conceito em quatro áreas fundamentais. Na vacinação e saúde, o Professor Doutor Telmo Nunes (FMV-UL) lamentou a falta de parâmetros de avaliação; na biodiversidade, a intervenção coube à Doutora Alessandra Nava (Fiocruz); nas alterações climáticas, a Doutora Carla Maia (IHMT NOVA) alertou que o impacto nos vetores de doença vai além dos eventos extremos; e, nos recursos aquáticos, a Prof. Doutora Manuela Calado (IHMT NOVA) defendeu a ação local sem esperar por decisões ministeriais.
Posteriormente, no painel moderado pelo Dr. Xavier Canavilhas, a discussão centrou-se na falta de incentivos institucionais à investigação intersetorial, com o Professor Doutor Telmo Nunes a lamentar a ausência de parâmetros de avaliação nesse sentido. O debate, que contou ainda com os contributos do Professor Doutor Fernando Cupertino, Doutora Filipa Ceia (ULS São João) e Prof. Doutora Cláudia Conceição (IHMT NOVA), terminou com uma nota ética: a necessidade de toda a investigação se pautar pela reflexão sobre o seu real contributo para a vida das pessoas.”
Construir soluções em conjunto
A tarde do evento ficou reservada ao World Café, dinâmica de trabalho em grupo em que os participantes foram desafiados a propor soluções concretas — de governança a sistemas de vigilância, passando por formação, inovação e comunicação — para cinco áreas temáticas: doenças emergentes e pandemias, doenças vetoriais e infeciosas negligenciadas, segurança alimentar, resistência antimicrobiana e desafios ambientais.
Como conclusão, ficou a ideia de que os desafios de saúde atuais são globais e exigem a quebra de silos através de cooperação interdisciplinar e lusófona reforçada — havendo, apesar do caminho ainda longo, uma forte vontade de transformar diferenças em complementaridades.
No âmbito deste evento, o Professor Fernando Cupertino deixou ainda uma nota alusiva aos 30 anos da CPLP, que pode ser consultada no vídeo seguinte.
(*Texto elaborado com a colaboração de Débora Miranda, consultora de comunicação na área da saúde.)
Parte da Manhã
Parte da Tarde














































































